DOSSIÊ: Pensamento urbano brasileiro

Pensamento Urbano no Século XXI

É uma alegria expor ideias, ideias em que ainda estão em movimentação, que não estão arrumadas completamente. Aliás, acho que não precisam estar porque elas são um estímulo para aquilo que eu estou produzindo. Elas estão em movimento, são ideias em movimento (RIBEIRO, 2012).

Este dossiê nasce de uma preocupação do urbanismo com o exercício do da dúvida e do pensamento, ou seja, de ideias em movimentação, a construção e o acesso ao conhecimento do que é ou não é a cidade. Se, por um lado, o pensamento social tem como objeto a sociedade brasileira; o pensamento político, por outro lado, tem como objeto a formação política e democrática; e, por fim, o pensamento econômico tem a formação socioeconômica ligada a ideologias e governos — o objeto do pensamento urbano é cidade, entendida não só como espaço amorfo, mas por realidades próprias da vida urbana. Da área, por conseguinte, se espera um quadro analítico mais claro que ofereça um debate sobre sociedade e política, mediante o qual possam perpassar campos de ideias e de ações, visando reflexões sobre o bem-estar social.

Neste início de século, a cidade está intrinsicamente situada no debate político e econômico do país. Daí decorre que a forma como se pensa esses dois âmbitos influencia a história de nossas cidades, a qual se altera constantemente.  Entre otimismo e pessimismo quanto à realidade urbana, há o retorno de temas urbanos com mais força ao debate político da cidade. Como o da “violência e periferias urbanas” na ocupação militar do Rio de Janeiro em 2018. Ponto de inflexão com a euforia das redes sociais e das mídias com as provocações teóricas, filosóficas e científicas da Profa. Dra. Jacqueline Muniz quanto contexto da intervenção militar e urbana. Sua fala é uma inflexão ao colocar em debate ideias, dúvidas, pensamento, conhecimento e os mitos celebrados quanto ao tema. Portanto, pensamento urbano saindo dos confinamentos da academia e do sistema de publicações ao ato de ensinar a sociedade a questionar valores por trás da ação do Estado.

 Segurança pública, por exemplo, e aos assuntos do cotidiano, colocando em pauta a figura do Estado, de governos e de instituições político-sociais. Emergem então formas de pensamento e ação contra a ideia de democracia como um espaço em que o sujeito se constitui cidadão de direitos, e pela qual não apenas os antigos direitos são assegurados, mas são repensados. O risco inerente a tal realidade reside justamente aí: será que a sociedade brasileira tem consciência de fato do que é a cidade e pode impedir que agentes políticos a fragmentem em discursos que servem à formulação de relações de poder?

No âmbito dessas questões, o tema cidade reaparece sob distintas narrativas nos meios de comunicação, a partir de interlocutores cientistas, pesquisadores, professores, sindicalistas, ativistas, jornalistas, comentadores, blogueiros, youtubers e partidos políticos. Entre o dito e o não dito, o pensamento crítico da realidade urbana brasileira parece se distanciar de um debate autêntico, com minúcia, e que estabeleça uma relação entre política, sociedade e cidade, negligenciando, ora a vida humana, ora os direitos humanos, civis e políticos e, por fim, o direito à vida urbana. Tal debate se mostra como um campo de múltiplas entradas, cada vez menos presente em uma sociedade que se diz democrática, que se quer moderna numa época de modernidade.

Por outro lado, não há dúvida que o conhecimento científico influencia as formas de pensar e agir da sociedade, como no caso da Profa. Dra. Jacqueline Muniz. Por isso, parecem ser urgentes certas comunicações científicas que contestem conhecimentos acerca da realidade urbana brasileira — que proponha análises, reflexões, discussões e interpretações capazes de explicar tal realidade em mutação. Ademais, uma abordagem teórica e crítica de realidades tão complexas não pode ser pensada apenas por um ou outro campo do conhecimento.

Nesse sentido, este dossiê não pretende publicar trabalhos sobre estudos de casos resultados de dissertações e teses, ou ainda, pesquisas onde os autores se foquem na realidade de um objeto em análise. Tampouco trabalhos estritamente descritivos sem rigor teórico e metodológico. Não negamos aqui o valor neste tipo de trabalho; porém, nosso interesse se volta à publicação exclusiva de artigos teóricos. Claro que dissertações teses e pesquisas teóricas a partir de casos/fatos/história são bem-vindas. Ao contrário, convidamos pesquisadores, em especial urbanistas, geógrafos, sociólogos e antropólogos do urbano a submeterem trabalhos que em alguma medida possam responder indagações como:

  • O que é o pensamento urbano brasileiro? No que ele se difere do pensamento social, político e econômico?
  • Levando-se em consideração que tem sido comum o interesse de autores desde 1950 por pesquisas do urbano, pode-se dizer que hoje existem novas teses que expliquem a realidade urbana? Ou só uma volta a antigas teses? Pensemos, sobretudo, na realidade brasileira;
  • Se adotamos o ponto de vista que arquitetura e urbanismo importam à sociedade — qual é a realidade destes campos do conhecimento atualmente? Há diferenças entre o que real é a o urbanismo e a realidade social, rural e urbana? Como o descompasso ou pontos de encontro entre as duas dimensões são pensadas? Se há de fato um descompasso, por que insistimos em utilizarmos conceitos e definições tradicionais?
  • Podemos pôr em prática um exercício do questionamento de um urbanismo brasileiro? Ou aqui prevalecem ainda ideias de outros modelos de urbanismo estrangeiros? (Pensar tal pluralidade de observações e teorizações interessa, sobretudo, para entendermos a cidade na pluralidade de “Brasis”).
  • Na história urbana brasileira, quais foram as trajetórias do pensamento urbano? Qual é o seu marco inicial? Quais foram os seus períodos? Quem são os autores principais dessa formação — são brasileiros atuantes na arquitetura e urbanismo, ou nosso conhecimento foi e está sendo moldado por outras áreas? Quais outras áreas são mais presentes no pensamento urbano e por quê? Houve influências estrangeiras neste processo? Como a formação social e econômica relaciona-se a concepção do pensamento urbanístico?
  • Qual a linhagem de intelectuais, pesquisadores, arquitetos, urbanistas e planejadores urbanos brasileiros? Há aqui um estilo de pensamento constituído, ou, ao menos, em fase de constituição?
  • O rigor da teoria e do método precisam ser colocados em questão quando se trata de temas urbanos. Qual exame critico há sob a produção do conhecimento recente? Se não há, será possível construi-lo?
  • Quais temas são ainda no século XXI pouco explorados? O que foi dito e o que não foi dito? O que é preciso dizer?
  • Pode-se falar sobre “pensamento urbano” e sobre o dinamismo das classes sociais sem cair em categorias desgastadas, tal qual a ideia de “segregação urbana”? Ademais, há relações possível de ideias como essa, pautadas no urbano, para pensarmos demais setores sociais — por exemplo, o mundo agrário, os grupos religiosos e os setores informa do trabalho?
  • Entre esquerda e direita, quais formas de pensar e agir podem ser apreendidas numa reflexão política e ideológica da cidade?
  • Quais tendências podem ser observadas em relação ao futuro do pensamento urbano?
  • Por fim, estratégias econômicas e sociais do Governo Lula/Dilma através dos programas de governo como o Programa de Aceleração do Crescimento regionalizando infraestruturas urbanas e regionais. Levam-nos a qual tipo de pensamento? Como e do que dizer do momento pós PAC?
  • Temas outros importantes a este dossiê.

Por fim, espera-se construir este dossiê através de um embate teórico relacionado aos precursores, os clássicos e uma ênfase a novos interlocutores do pensamento urbano.  

Recomenda-se atenda leitura ao formato de artigos da revista para 2019 disponível no portal da revista.

Chamada ao dossiê: https://bit.ly/2S6WtPD

Submissão online: http://periodico.revistappc.com

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Contato: revistappc@gmail.com

Atenciosamente,

Wesley da Silva Medeiros

Editor-chefe da Revista Políticas Públicas & Cidades